Violência do Trânsito I (Kibada Editorial)

by

Violência do Trânsito

Viver num grande centro vem se tornando inviável. As condições são as mais desumanas possíveis.  O espírito de solidariedade já não mais existe. As pessoas não se olham nos olhos e, quando se cruzam nas ruas, raramente buzinam. O resultado só poderia ser o mais triste: milhões de vítimas de um trânsito violento e brutal.

Os números desta tragédia são alarmantes. Estatísticas comprovam que, apenas no Rio de Janeiro, ocorrem cerca de 7 acidentes por minuto. Em cada um destes, aproximadamente 4 pessoas morrem atropeladas, outras 5 são vítimas da omissão de socorro, 2 ficam presas nas ferragens e mais de 15 curiosos ficam olhando sem fazer porra nenhuma. Considerando que em cada carro viajam em média 3 pessoas e que uma colisão envolve geralmente 2 automóveis, a conclusão do DNER é que várias pessoas chegam a morrer mais de duas vezes no trânsito.

Uma pergunta atormenta a todos os brasileiros: Quem é o responsável por esse quadro? Os motoristas imprudentes, os pedestres distraídos, as autoridades omissas ou o IBGE? Enquanto não se chega a uma resposta convincente, vamos mostrar com mais clareza essa lastimável situação.

A IMPUNIDADE

A guerra das estradas encontra um feroz aliado: a impunidade. Ninguém no Brasil sofre penas rigorosas ao colocar em risco a vida de outras pessoas. Por isso, qualquer um pode comprar sua carteira numa liquidação da Mesbla ou da Sears e sair por aí fazendo as maiores bobagens, sem querer ser importunado pela polícia rodoviária. Segundo o diretor do DETRAN, o problema da habilitação no país só será resolvido quando a Caixa Econômica Federal reabrir o financiamento da casa própria para a população de baixa renda.

Além disso, os veículos trafegam em condições totalmente irregulares: extintores e tanques vazios, pneus e motoristas carecas, além de pára-lamas enferrujados, tocando aquelas musiquinhas batidas.

O PEDESTRE

A verdade é que muitas vezes a imprudência parte do próprio pedestre. É bastante comum passageiros saltarem dos ônibus em movimento para dar calote, assim como muitos cegos atravessam a rua sem olhar para os lados. Os campos de futebol próximos às estradas representam outro fator de perigo. Os motoristas já sabem que atrás de uma bola, vem sempre uma criança correndo, na maior banheira. Onde está o Mário Vianna que não vê uma coisa dessas?

A despeito da indiferença das autoridades para o problema, a sociedade já começou a se organizar. Com o objetivo de conscientizar a população dos perigos do trânsito, várias entidades civis estão trabalhando na reeducação do cidadão no trânsito. Entre elas, está a Socila, que preparou um curso para ensinar o pedestre brasileiro a andar nas passarelas.

Numa entrevista à nossa reportagem, o psicólogo Eduardo Mascarenhas afirmou que a questão dos acidentes não é tão simples assim: “É preciso buscar uma relação mais harmoniosa entre atropelandos e atropelados. Quantas vezes, na hora do acidente, não vemos estes últimos reproduzindo atitudes típicas de nossos governantes, tentando tirar o corpo fora?”

O ministro Maílson da Nóbrega também tem opinião controvertida sobre o assunto. Num desabafo, ele disse que pedestres irresponsáveis desestabilizam a nossa economia ao cruzarem as auto-estradas, reforçando assim a figura do atravessador.

O MOTORISTA

Essa estranha espécie costuma se reunir à tardinha nas diversas vias de acesso da cidade e, como passa tempo, gosta de xingar a  mãe dos outros e tirar meleca do nariz. Está à frente do sem tempo; para ela, sinal vermelho é uma coisa totalmente ultrapassada. As motoristas, ao contrário do que dizem, são bastante prudentes e só freiam quando estão com a razão. Os motoristas gostam de passar o dia na oficina coçando o saco, cantando as gatinhas dos calendários e contando como conseguir ultrapassar três carros pelo acostamento da contra-mão, atropelar duas velhinhas, avançar quatro sinais, enfiar o carro no poste e ainda botar a culpa na mulher.

Os motoristas profissionais são constantemente acusados de serem os responsáveis pelas bandalhas do trânsito. Muitos sociólogos insistem na tese de que eles usam o volante como válvula de escape para suas angústias e frustrações.  Mas Raramente é feita uma análise mais cuidadosa das condições a que eles são submetidos. O stress, os salários aviltantes e o calor são apenas alguns fatores de desequilíbrio da mais antiga das profissões, depois da invenção da roda. O chofer da linha 455 – Copacabana-Méier, no Rio, conta que devido à jornada dupla diária, ele mal tem tempo de ir ao banheiro, se vendo obrigado a fazer merda nas ruas.

O QUE FAZER?

Diante de um quadro tão negro, com pedestres desatentos, motoristas navalhas e pederastas giletes, o brasileiro tem poucas razões para manter a esperança de um dia morrer num engavetamento mais civilizado. De qualquer forma, muitos lutam por punições mais enérgicas aos culpados. Além disso, deve-se controlar com mais rigor a venda de álcool nos postos de gasolina. Pesquisas provam que o álcool vem matando de raiva muitos motoristas nas estradas, que por vezes são obrigados a empurrar seus automóveis, já totalmente dependentes da droga. Um motorista gaúcho chegou a confessar que seu carro bebe muito e que ele só faz companhia pro coitado não encher a cara sozinho. Outro problema grave, segundo os guardas rodoviários, são as propinas insistentemente oferecidas pelos infratores. “elas são muito baixas, não dão pra nada.”

De qualquer forma, a sociedade brasileira não suporta mais esse estado de coisas e é unânime em afirmar que é preciso fazer alguma cosas, mesmo que ainda não se saiba o quê.

Almanaque CASSETA POPULAR, Ano IV nº 25, 1989. Rio de Janeiro, Toviassú produções artísticas LTDA.

Depois tem mais kibada de sebo

Anúncios

Tags: , , , ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: